AMOR SUBLIME AMOR...

"Que não seja imortal,posto que é chama,
mas que seja infinito
enquanto dure"...( Vinícius )
Foi um acontecimento marcante, algo como os fenômenos que só ocorrem a cada cem anos...Uma emoção,cujo as truculências do mundo moderno,estão a suprimi-lo na outra ponta da concepção moralista.Dois extremos bem opostos que fundidos, banalizam e agridem o maior estado de graça e de espírito que governa o sentimento mais recôndido em nosso coração...O AMOR.
Existe um conceito errôneo muito difundido, segundo o qual o único objetivo do amor é a procriação. Inconsequente dedução ! Por meio de conceitos ilógicos sobre esta conciliação carnal humana e espiritual, o que se constata em tempos modernos, é a ausência total de sentimentos, uma busca desenfrada pelo prazer e uma explosão generalizada que consome uma linha variada de objetos para a satisfação erótica , artificializando a plena e robusta sexualidade que recria e realiza particularmente homens e mulheres.
No encontro inesperado de Marcos com aquele que foi o grande amor de sua vida, suas lembranças e a experiência desse substrato do amor sublime evoca nesse contexto sua breve narrativa:
- Tarde de domingo, preparava-me para mais uma reunião na comunidade religiosa a qual pertenci, por longos anos... Havia me arrumado com muito asseio, e me preparava para aquele dia semanal, um momento de pura contemplação, o recinto inapropriado para tal desejo, a incontrolável e sobre humana arte de amar. Naquele local conservador e dogmático, a sensação surreal de alegria e transcendência ocorreu quando os meus olhos fitaram aquela figura angélica, com o seu sorriso que iluminava os meus passos e florescia o meu rosto. Eu a amava acima de todo maneirismo mitopoético, desmembrado de qualquer ilação fictícia ou imaginária...Essa mulher-deusa é que habitava o meu imaginário, sua aparência inefável era real.
Aguardando silenciosa e serenamente por esses encontros recolhidos em sentimentos platônicos, me arrumava enfrente ao espelho, mão na gravata e um último retoque no cabelo...Os batimentos cardíacos se aceleravam e a menina dos olhos refletidas naquele vidro pareciam duas estrelas em sincronia...Até que ao sair da saleta que dava acesso a porta principal me deparei com aquele oásis perdido...Que nunca será meu. Embora real ela foi a miragem mais doce e cristalina que já presenciei...Em toda a minha vida.
Nesse encontro repentino, percebi toda a sutileza e excitação que se apoderavam de nossos corpos, um aperto de mão forte e uma respiração incontida nos levou em segundos para a simbólica e intermitente terra que mana leite e mel...Uma cena exclusiva, nunca antes absorvida, um prelúdio do amor...Nesse toque furtivo de nossas mãos, nossos olhos fizeram amor com o ilusório, e uma sensação de arrebatamento e fascínio me fez ver um anjo recitar um trecho do poeta Ovídeo:
... A arte deve reger o amor..."
Naquele momento cintilante do tempo uma sensação de eternidade: Amar,amar...E amar. Foi um momento único e raro entre a minha existência e o significado da vida. A aclimatação de nossas almas em uníssono reconstituiu em nós a felicidade jubilosa da assembléia de anjos, e o gozo espiritual assumiu uma dimensão própria, a carezza, quando percebi que ela não estava mais naquela atmosfera lírica retirando-se para um momento individual e particular da mulher que foi beijada na alma...Levando consigo a sensação plena de ser desejada...De ser amada.
Não há palavras que descrevam em minúcias aquela doce e subjetiva sensação de beleza e divindade que inspiram poetas, os compositores da maravilhosa verossimilhança que há entre o real e o imaginário...não há doutrinas e preceitos capazes de neutralizar o sentimento mais poderoso e ao mesmo tempo sublime que rege todo o universo. Não haverá em toda a história da humanidade ignomínias e hedonismos capazes de esvaziar aquela força propulsora, libertária e renovável em si mesmo... Aquela como Ovídeo percebia como a verdadeira ARTE DE AMAR.

Escrito por às 22h05
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Ps 2: Leite derramado apesar de algumas similaridades com Dom Casmurro, não é a meu ver uma tentativa de Chico de plagiar a principal obra de Machado. Trata-se de uma leitura leve, com uma narrativa que não se torna em nenhum momento monótona e que mostra a decadência da aristocracia brasileira.






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