Damas da Literatura

Uma mulher casada que marcou uma época, vive um relacionamento aberto, ama dois homens, não foge de seus arroubos de paixão, vive suas emoções até as ultimas consequências. Outra mulher, abandona as festas do right society, o glamour que o dinheiro proporciona, rejeita "partidos" indispensáveis; recusa-se a abraçar a promissora carreira jurídica e dedica-se a escrita de livros eróticos, quase pornográficos. Destrói corações masculinos, deita-se em muitas camas, não se fixa a nenhuma. Cai na boemia como se fosse um homem. Uma menina ainda e já poliglota, fala hebraico na adolescência. Aos 22 anos já era redatora, tradutora e torna-se uma escritora para qual o Brasil foi pequeno demais. Ela ganhou o mundo como uma bruxa. Não, não estamos falando de mulheres que vivem nos anos 2000. Falo de mulheres que atingiram o seu auge intelectual no século passado. Escrevo sobre 3 damas marcantes: Simone de Beavouir, Clarice Lispector e Hilda Hilst. Dona de uma mente que pensava os desdobramentos de uma geração que sofria os efeitos do pós guerra, Simone de Beauvouir desafiou paradigmas de uma tradição que ainda imperava na França de sua época, traduzidos em obras que a filósofa compilava e desenvolvia a partir de suas próprias experiências pessoais. Viveu intensamente uma vida de militâncias ao lado de seu grande amor, Jean-Paul Sartre, em que ambos assumiam para a sociedade e para si mesmos um relacionamento aberto, de contigências amorosas... Mas exclusivamente essencial. Simone de Beauvouir, era intrépida quando o assunto era a liberalidade amorosa e ao lado de seu marido viveu fascinantemente uma história de engajamentos políticos e a resolução amorosa que contrariava os ditames daquela sociedade patriarcal. Colidindo com esse valores rígidos da qual emergiu, Simone de Beauvouir não hesitava em se transpor dos romances literários para uma vida marginal e deliciosamente aventuresca que a levou até Nelson Algren, o amante americano que a fez mergulhar num cenário de pulsões e sensualidade marcando a trajetória dessa pensadora que hasteou a bandeira do feminismo e da independência da mulher moderna. Sartre, que viveu ao lado de sua mulher culturalmente aclamada sabia que as contingências e o amor essencial da qual ele fora destinatário, era parte de um contrato celebrado intensamente no afã de suas paixões condicionais..." O que é maravilhoso em Simone de Beauvouir é que ela tem uma inteligência de homem e uma sensibilidade de mulher", dizia ele.
" No interesse do meu pacto com Sartre , eu tinha a mesma liberdade com que ele...E a usei", disse ela.
Simone de Beauvouir, nos deixou um dilema dos amores que estabeleceu pra si mesma, sempre a frente de seu tempo, aboliu de suas feições humanas e culturais a hipocrisia que ela condenava nas relações pessoais como um todo e dissertava com todo o primor que lhe garantiu titularidades acadêmicas, contra todo o tipo de mediocridade de uma sociedade ultrapassada. "O homem é livre; mas ele encontra a lei na sua própria liberdade". "Não são as pessoas que são responsáveis pelo falhanço do casamento, é a própria instituição que é pervertida desde a origem". (Simone de Beauvouir) Nas profundezas de um valor literário sem descrições, Clarice Lispector confere ao seu leitor uma espécie de "prerrogativa" em desvelar por sua conta o enredo na propositura de seus textos, em que, de forma singular e absoluta, constrói em vigas de narrativa e autoreflexão filosófica...O estilo desenvolto e acurado que a consagragou mundialmente. Uma mulher que insinua um tipo de sensualidade subliminar em sua escrita, ao mesmo tempo que a autora se reserva apenas em sua intimidade e compostura diplomática, dá mostras de uma leitura erudita, marcante e segundo críticos, metafísica, pois Clarice era até mesmo "misteriosa para si mesma"... "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". (Clarice Lispector) Ela conheceu o mundo da fama, se passou por jornalista para tentar sem sorte ir para a cama com Marlon Brando...Foi cobiçada e cortejada por presidentes da república... Mexeu com o coração de nosso "Poetinha" pra quem "beleza era fundamental" e ela era muito mais que bela. Conseguiu a proeza de ser deslocada de sua turma na formatura que a corou como Bacharel em Direito pela liberal Universidade de São Paulo. Hilda Hilst não se resumia numa garota irreverante e transgressora de sua geração, muito menos na mulher que foi um escândalo para sua época de conservadorismo exarcebado, foi tudo isso e um pouco mais por sua veia literária imortalizada nas letras de nosso país. Da adolecência tumultuada pela patologia de seu pai, Hilda enfrentou situações que a levaram agir com o improviso que lhe restava frente a esquizofrenia de que foi portador. Este a confundia com sua mãe e queria possui-la, invariavelmente abordando- a no quarto e pedindo: " Só três noites de amor, só três noites de amor"... "Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. Antes, o cotidiano era um pensar. Buscando Aquele Outro decantado surdo à minha humana ladradura alturas.". ( Hilda Hilst )
Hilda Hilst escreveu uma série de contos eróticos, por buscar melhor visibilidade no mercado editorial, o que denotava o grande desinteresse do público por uma literatura bem elaborada em escritos de poesia, contos e dramaturgia que venceu vários prêmios de relevância nacional como Jabuti e Cassiano Ricardo (do Clube Poesia de São Paulo ). Esses e outros mitos da feminilidade humana em todo o seu contexto literário, poético e até revolucionário nos transcende ao enigma dessas mulheres especiais...Assim como Rosa de Luxemburgo que se insurgia ideologicamente, mas queria amar e ser feliz. Mulheres na fisiologia, no corpo e na alma...Mulheres que se refreiam em dominar o mundo ! Mulheres que encantam, enfeitiçam com a sua simples existência...Mulheres: a origem da criação do mundo, da poesia...Do amor.
Escrito por Marcelo Figueiredo às 16h52
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